Como optar por produtos e materiais mais sustentáveis e evitar o greenwashing?

Em setembro, tive o prazer de representar o CTE e integrar o comitê técnico para definição dos finalistas do Prêmio Planeta Casa, uma iniciativa da revista Casa Cláudia (Editora Abril) para premiar empresas, profissionais e ONGs que apresentam produtos, projetos e ideias que contribuam social e ambientalmente.

O concurso acontece há nove anos e, em 2010, houve recorde de inscrições: 361 em todo o Brasil, nas categorias Ação Social, Produtos de Decoração, Empreendimento Mobiliário, Materiais de Construção, Projeto Arquitetônico e Design de Interiores.

Integrando o comitê na Categoria Materiais de Construção, juntamente com outros cinco especialistas nas áreas de engenharia, certificação de madeiras e plásticos, pude perceber o quanto devemos estar atentos e evitar o greenwashing, propaganda ecológica enganosa, estabelecendo critérios para a definição de um produto ou material sustentável.

Hoje, nem todos os produtos apresentados como “verdes” têm características realmente sustentáveis. Na maioria das vezes, são as próprias empresas fabricantes que autoclassificam seus produtos como sustentáveis, enumerando vantagens ecológicas sem comprovações técnicas adequadas.

Produtos que se divulgam produzidos com material reciclado, mas que não se reciclam, como telhas de papel com betume, que, além de não oferecerem durabilidade, tornam-se um resíduo perigoso; tintas que prometem reduzir a temperatura interna entre 20 e 30°, em qualquer cor. Esses são exemplos do que está acontecendo no mercado: o produto “ecológico” está em alta e todos vendem algum atributo ou selo, sem prova ou critério algum.

O que está por trás destes selos ditos “verdes”? Que critérios foram utilizados para criá-los? Como o consumidor pode avaliar os impactos ambientais do produto? Que informações são necessárias ao consumidor para que ele avalie se aquele material apresenta características para um nível satisfatório de sustentabilidade?

Devemos desconfiar de selos verdes criados para materiais de construção que englobem várias vantagens ambientais (nível de toxicidade, consumo energético, reciclagem etc.), sem que isso fique claro e transparente para o consumidor, diferente da certificação FSC (Forest Stewardship Council), que certifica especificamente uma madeira extraída de florestas com manejo sustentável.

Produtos considerados sustentáveis perdem suas vantagens ecológicas se utilizados de forma e local não adequados. O tijolo de solo-cimento, por exemplo, possui vantagem ambiental quando utilizado como alvenaria estrutural, não apenas como vedação. Da mesma forma, um produto considerado verde não fabricado na região da obra pode não ser a melhor opção, pois não contribui com a economia local e ainda demanda transporte, causando emissões de CO2 para a atmosfera. Será que vale a pena especificar um piso de bambu, por ser um material com conteúdo rapidamente renovável, se ele vem da China?

Há ainda o problema dos produtos que ficam na moda por períodos curtos de tempo e podem não ser encontrados daqui alguns anos, em caso de reformas. Mesmo que tenha o selo, o melhor é optar por produtos atemporais, como madeira, tijolo e outros que nunca saem de cena e são facilmente encontrados, o que permite reposição parcial e não total, quando necessário.

É importante destacar ainda que muitos produtos e materiais já se tornaram padrão no mercado: torneiras com vazão de 6 a 8 litros, arejadores, bacias com fluxo duplo, placas de aquecimento solar, são produtos que não precisam mais do rótulo “ecológico”, pois seu uso passa a ser padrão.

Alguns procedimentos da indústria também já são comuns e não mais inovação ou intenção ecológica. Escória de siderurgia no cimento CPIII ou CPIV diminui o custo de fabricação do material. A reciclagem de resíduos da própria produção da cerâmica também reduz custos e indica a necessidade de melhoria na fabricação para se evitar desperdícios. Este último não caracteriza uma cerâmica com conteúdo reciclado, apenas quando o resíduo de outro processo de fabricação é incorporado.

O ideal, portanto, seria que os materiais de construção apresentassem uma tabela com indicadores de sustentabilidade, similar às tabelas nutricionais que temos hoje nos produtos alimentícios, que indicasse, por exemplo, o percentual de componentes reciclados ou o percentual de conteúdo rapidamente renovável. Para isso, seria preciso estabelecer indicadores de sustentabilidade e uma norma padrão para cada produto, listando os laboratórios capacitados para a realização dos testes. Dessa forma, todos os produtos seriam avaliados de acordo com os mesmos critérios ? e não como ocorre com os selos, que têm critérios próprios e diferentes entre si. Hoje, se dois produtos têm selo verde, isso não significa que eles sejam igualmente sustentáveis.

Assim, o consumidor teria condições de comparar os produtos e comprar de forma mais consciente. Além disso, a tabela teria de ser resultado da avaliação de uma entidade independente, que certificaria o que o fabricante está propagando.

De modo geral, a tendência de um fabricante que adquire um selo verde é estacionar suas possibilidades de melhorias, ficar engessado, como se já tivesse atingido o limite em termos de sustentabilidade. A tabela, ao contrário, abriria as possibilidades de melhorias constantes dos produtos, já que a transparência estimularia os fabricantes a investir mais e mais na sustentabilidade para se diferenciar no mercado. 

Prestar atenção para o greenwashing é ousar e questionar o que está sendo vendido. Se um produto é divulgado como sustentável ou ecológico, o importante é descobrir o porquê. Ele deve oferecer segurança ao usuário e atender às leis e normas técnicas, ser esteticamente agradável, durável, de fácil manutenção, fabricado o mais perto possível, reciclável, menos tóxico, e, se possuir conteúdo reciclado ou for de matéria-prima rapidamente renovável, melhor ainda.

Entender realmente o que é um benefício ambiental diante do que é padrão é imprescindível para especificar, escolher e, enfim, premiar um produto como sustentável.

  * Alessandra Ramos Caiado é Arquiteta urbanista formada pela PUC-Goiás. Especialista em Sustainable Architecture pelo SFIA, São Francisco, Califórnia, EUA. Mestranda em materiais na FAU-USP. LEED® AP pelo USGBC. Consultora da Unidade de Sustentabilidade do CTE, responsável por análises de projetos com foco nos conceitos aplicáveis de sustentabilidade em design, materiais e tecnologias.