Tragédias geológicas: o objetivo deve estar na eliminação do risco

Ao dar atenção prioritária aos sistemas de alerta pluviométrico, alguns homens de governo vêm revelando um perigoso mau entendimento sobre qual deveria ser o real foco estratégico dos programas voltados a evitar tragédias geológicas como as que têm ocorrido desde há muito em nossas cidades serranas.

Os sistemas de alerta sobre a iminência de chuvas intensas, incluindo indispensavelmente o treinamento da população, são necessários, especialmente considerando as condições emergenciais de curto prazo. Porém, fazer desses sistemas o foco principal das ações de governo pressupõe a adoção de uma equivocada estratégia de convivência com o risco, de aceitação e administração do risco, uma temerária acomodação frente ao que seria essencial e possível do ponto de vista corretivo e preventivo, qual seja, eliminar o risco. Seja pela remoção e reassentamento dos moradores de áreas de alto e muito alto risco geológico natural, seja pela implementação – com base em Cartas Geotécnicas – de uma rígida regulação técnica da expansão urbana, não permitindo de forma alguma novas ocupações de áreas geologicamente impróprias para tanto.

O quadro a seguir indica a estruturação ideal de um Programa de Redução de Riscos Geológicos.

 

 

GESTÃO DE RISCOS GEOLÓGICOS – LINHAS DE AÇÃO

FOCO ESTRATÉGICO: ELIMINAÇÃO DO RISCO                                      ARSantos

CARÁTER

AÇÕES

INSTRUMENTOS DE APOIO

PREVENTIVO

Regulação técnica da expansão urbana impedindo-se radicalmente a ocupação de áreas de alta e muito alta suscetibilidade natural a riscos.

·          MAPA DE SUSCETIBILIDADE

·          CARTA GEOTÉCNICA

Regulação técnica da expansão urbana obrigando que áreas de baixa e média suscetibilidade natural a riscos somente possam ser ocupadas com técnicas a elas adequadas.

·          CARTA GEOTÉCNICA

·          CÓDIGOS DE OBRA

 

CORRETIVO

Reassentamento de moradores de áreas de alto e muito alto risco geológico natural.

·          CARTA DE RISCOS

Consolidação geotécnica de áreas de baixo e médio risco geológico natural e de áreas de risco induzido.

·          CARTA DE RISCOS

·          PROJETOS DE CONSOLIDAÇÃO GEOTÉCNICA

 

EMERGENCIAL

Remoção imediata de moradores de áreas de alto e muito alto risco em situações críticas.

·          CARTA DE RISCOS

Concepção e implementação de Planos Contingenciais de Defesa Civil com participação ativa da população.

·          CARTA DE RISCOS

·          SISTEMAS DE ALERTA

 

 

Como decorrência desse correto entendimento, será essencial que o governo, em seus diversos níveis, foque sua atenção prioritária no campo dos conhecimentos geológicos e geotécnicos das regiões serranas, respaldando as instituições públicas e privadas que com eles lidam com os recursos materiais e financeiros indispensáveis à sua plena dedicação aos municípios mais afetados.

Por outro lado, para atender às necessidades colocadas por seu próprio crescimento, nossas cidades serranas, frente à natural escassez de áreas geologicamente para tanto apropriadas, devem agir criativa e ousadamente.

Duas alternativas devem desde já ser estimuladas: a intensa verticalização de áreas geologicamente apropriadas existentes na região já urbanizada e a procura, dentro do território municipal, de áreas novas de boa qualidade natural para receber a ocupação urbana, ainda que externas à região já urbanizada. Nessas novas áreas deverão ser projetados novos bairros, mas então de forma correta desde seu início, ou seja, com modelares planos urbanísticos e com Códigos de Obra especificamente elaborados para as condições do meio físico local.

Nascerão dessa iniciativa a Nova Teresópolis, a Nova Nova Friburgo, a Nova Campos do Jordão, que, por sua beleza e segurança, tornar-se-ão monumentos à inteligência e ousadia de suas populações.

 

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia. Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Cubatão” e “Diálogos Geológicos”.Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente.