Cidades precisam ter uso racional do espaço público

Uma boa cidade oferece um 'mix de usos'. É a opinião do arquiteto e urbanista Gustavo Partezani, um dos autores do Plano Diretor de São Paulo, que ficou entre os quatro melhores projetos em concurso da ONU-Habit. Em visita ao Rio para palestra na Universidade Corporativa do Transporte, da Fetranspor, o especialista criticou a estagnação do Porto Maravilha quase um ano após a Olimpíada, com 90% dos prédios novos desocupados. Para ele, uma das soluções é investir no conceito de bairros mistos, com moradia para diferentes classes, empregos, comércio, serviços, educação e lazer integrados, evitando longos deslocamentos e superlotação nos transportes. 

"O Porto Maravilha é uma cidade fantasma. Tem boa infraestrutura, mas é desabitada. É preciso produzir habitação para várias classes sociais. Não pode fazer um bairro só para escritórios de alto padrão, pois eles não virão para cá. Não ter ninguém na rua gera insegurança. Tem de trazer universidades, jovens e moradia estudantil para animar o lugar", acredita Partezani, lembrando que o VLT existe para facilitar a integração da região.

O urbanista acredita que estimular habitações sociais no Porto é fundamental para melhorar a mobilidade, uma vez que criaria oportunidade de diferentes classes morarem em uma região "perto de tudo", no coração da cidade. Na visão dele, a crise é o momento adequado para planejar. "Quando o mercado reaquecer, já está feito", avalia Partezani.

A opinião do arquiteto é norteada pelo Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (Dots), orientando o crescimento da cidade nas proximidades do transporte público. Segundo o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), o Dots implica num cenário de rua vibrante, com formas que levam em consideração os pedestres e tornam mais convenientes e seguros caminhar, usar bicicleta e transporte público.

Para Giancarlo Nicastro, CEO da SiiLA Brasil (Sistema de Informação Imobiliária Latino-Americana), o desinteresse de empresários na Zona Portuária é motivado pela falta de 'vida' do lugar. Ele citou recente estudo apontando que a revitalização da região não figura como atrativo, com taxa de vacância dos edifícios comerciais novos de alto padrão em 90%. "O Porto é uma região erma, perigosa, principalmente à noite", ressalta.

Plano atual é povoar região

O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), Antônio Barbosa, anunciou que a prefeitura negocia com a Caixa Econômica um empreendimento de 1.800 a 2.600 habitações no programa Minha Casa Minha Vida para a Rua do Livramento. Segundo ele, um projeto residencial privado, de 1.400 unidades, será lançado na Avenida Venezuela no segundo semestre. A Cdurp também estuda a possibilidade levar um residencial de 200 unidades para a Avenida Professor Pereira Reis.

"Falta um sistema de habitação e esse é nosso compromisso: fazer circular vida 24 horas naquela região. É o único lugar do Rio que pode misturar tudo, baixa e alta renda, habitação, artesão, escritório, loja", afirma Barbosa.

Ele explicou que a prioridade da Cdurp é induzir o desenvolvimento nas áreas da Gamboa e Santo Cristo. Também está nos planos da companhia atrair outras atividades, como um centro hospitalar de ponta e um teatro com funcionamento noturno.

Por Gustavo Ribeiro

Fonte: O Dia, Cidades, 11/06/2017